sábado, 14 de março de 2009

Iniciando a vida no Surf - Parte II

Passado o verão, com os novos amigos e parceiros de surfe, começamos a ir para a praia no outono.

Praia deserta, as casinhas de salva-vidas vazias, ventos fortes de sul, que deixavam as ondas gigantes e assustadoras.

A beira da praia é frequentada por muitos animais como gaivotas, cachorros e outras diversas espécies de aves.

Nesta época do ano devemos ter muita atenção por causa das redes, então, identificar a força e direção da corrente, bem como caminhar na beira da praia para ver onde estão as redes para evitarmos acidentes, são verificações necessárias para a nossa segurança.

No primeiro banho, já se nota a diferença na água do mar também, muito fria, sem roupa adequada, como um long no caso deste dia, não se consegue ficar dentro do mar por mais de 10 minutos.

Em alguns dias dependendo da temperatura da água, o primeiro contato dos pés e mãos com ela são horríveis, as juntas parecem que estão sendo esmagadas, e doem muito por causa do frio, mas depois de alguns minutos e algumas remadas a sensação diminui.

Varar o mar fica um pouco mais fácil, mas as vacas se tornaram mais assustadoras devido ao tamanho das ondas e o fato de estarmos sozinhos na praia, no caso de um acidente dependemos apenas dos amigos para o socorro. Depois do desafio de varar o mar ser vencido, a gurizada descansa um pouco e começa a se "atirar" nas ondas. Em dias assim cada joelhinho certo que nos "safa" de uma vaca gigante é vibrado.

Depois de algumas ondas e muitas vacas, pela primeira vez coloco em dúvida o quanto vale praticar este esporte. Depois de aproximadamente uma hora de banho e nos distrairmos, enxergamos uma rede de pesca há uns 30 metros de onde estávamos e a corrente forte nos puxava na direção dela. Remando dentro do buraco, os braços cansados pouco ajudam, a adrenalina sobe, o pessoal começa a avisar para todos ficarem juntos para no caso de acontecer algo a ajuda ser rápida. As ondas não ajudavam muito pois quebravam no banco de areia, sabíamos que pegando uma onda estaríamos salvos do perigo. Várias ondas se passaram, meus braços, ombros e costas doíam muito e as minhas remadas de nada ajudavam, quando me questionei: "O que estou fazendo aqui dentro do mar? Por que inventei de surfar?". No fim depois de muito esforço saimos do mar sem problemas, mas as marcas desta "luta" são sentidas nos músculos até o dia seguinte.

Nestas horas o importante é manter a calma e remar sem parar, utilizar a ondulação das ondas se formando para avançar, até conseguir pegar uma onda e enfim sair do mar.

Sempre quando se está iniciando a vida no surfe nos questionamos sobre valer à pena ou não surfar, mas como a maioria de nós humanos gostamos de um desafio, esta dúvida dura por pouco tempo.

Iniciando a vida no Surf - Parte I

Quando adolescente, por gostar do mar, despertei meu interesse pelo surfe. Assistia vídeos, lia revistas e me imaginava pegando as ondas perfeitas neles mostradas.

As capas dos meus cadernos do final do ensino fundamental e durante o ensino médio eram todas personalizadas, com recortes de revistas e desenhos por mim feitos.

Durante as aulas chatas eu ficava desenhando ondas e os símbolos das melhores marcas de roupas e equipamentos de surfe. Algumas vezes até competia com os colegas que curtiam surfe, para ver que fazia o desenho mais legal.

Mas duas coisas ainda me faltavam: Uma prancha e alguém que me acompanhe neste novo desafio, pois sabia dos riscos de entrar no mar sozinho, ainda mais quando se está aprendendo.

Comprei uma prancha de um amigo, usada, mas em boas condições e por um preço muito bom, mas ela era muito rápida e pesada para a remada, horrível para quem estava aprendendo.

Meus primeiros banhos foram com um amigo que passou junto comigo, parte do verão na casa do meu avô. Por sorte pegamos dias ótimos para um iniciante, com ondas boas e mar calmo, fácil de varar. Peguei minha primeira onda no terceiro dia, ela fechou rápido, mas a sensação de pegar aquela onda foi maravilhosa, ainda mais depois de muitas vacas e goles de água.

Uns dias depois, jogando futebol, no campo ao lado de casa, fiz amizade com uma gurizada que surfava, todos muito parceiros. Eles apareceram por lá e perguntaram se podiam jogar futebol com a gente. Depois de algumas partidas, o pessoal começou a se mobilizar para o surfe, me perguntaram se eu surfava e se eu era parceiro para dar o banho. Pronto agora não falta mais nada!

Nos banhos seguintes o mar não foi mais tão generoso, como nos dias anteriores. Ainda pequeno, mas com influência de nordeste, as ondas quebravam com intervalos muito pequenos, o mar mexido dificultava a remada. A cada banho um novo sufoco para varar, muitas ondas na cabeça, joelhinhos errados, vacas e muitos goles de água.

Depois de muita insistência consegui varar o mar, mas quando isso aconteceu, quase já não conseguia erguer os braços para remar, mas só de estar lá dentro do mar já me sentia feliz.

Nos dias seguintes a rotina se repetiu, futebol, surfe, vacas e nada de onda, mas conseguir varar, trazia o sentimento de satisfação.

As imagens vistas e situações presenciadas dentro do mar são indescritíveis. A cada dia que varava o mar e via as ondas, pôr-do-sol e a praia de um ângulo diferente, me apaixonava por este esporte.

O verão se passou, neste tempo consegui pegar mais umas duas ondas, mas já me sentia um surfista, não que eu quebrasse a vala, mas já tinha me tornado "dependente" deste esporte.

sábado, 7 de março de 2009

Surfe: esporte, estilo de vida, ou vício?

Pergunte isso para um surfista e ele vai te responder "Os três!".

Mais do que isso, o surfe é uma forma de lazer para as pessoas que assim como gostam de esportes, gostam de estar em contato com a natureza.

Uma religião, terapia, o surfe age na cabeça e alma, de forma que o surfista se transforma após um banho, provas disso, são as diferentes loucuras que os praticantes deste esporte fazem para conseguir ao menos por algumas horas, ficar dentro do mar e pegar nem que seja uma onda. Não importa ao surfista que estas horas de prazer sejam muito menores do que as de viagem que antecederam o tão esperado momento de entrar na água, até porque com o amor pelo surfe, gostamos de viajar buscando o nosso momento de relax.

Desde bate-volta, onde se vai pela manhã bem cedo e retorna depois do banho, a feriados onde se passa mais tempo dentro do carro viajando do que surfando, ou até em finais de semana em pleno inverno, dormindo dentro de uma barraca, abraçado com a namorada para não passar frio.

Dirigir durante uma noite inteira para chegar ao local do surfe, chegar na casa onde a galera vai ficar e arrumar tudo é tranquilo para a maioria dos seres humanos, mas depois disso tudo tomar um café e sem dormir por mais de 24 horas ir direto para a praia para surfar por 2 horas como se tivesse descansado por dias, não é para qualquer um. Afinal depois do almoço não se pode surfar, então no período da digestão e durante a noite a gente dorme.

Estas "indiadas" para os não-praticantes deste esporte parecem loucura, mas se praticadas ou contadas para um "surfista maluco", estas histórias serão perfeitas, ou no mínimo interessantes, desde que, durante o sacrifício as ondas tenham cooperado.

O tamanho da "indiada" depende dos recursos disponíveis no local da trip, bem como a grana disponível para o momento, mas como todo bom brasileiro, sempre se dá um jeito. Leva-se desde a comida para todo o tempo fora de casa, até papel higiênico, sal, vinagre, o que for necessário e possível de acomodar nos espaços disponíveis no carro, depois de guardados os equipamentos de surfe, é claro!


Fotos, vídeos e lembranças destes momentos são constantemente assunto de conversas entre os participantes da trip, ou praticantes do surfe, que as tem como troféus e páginas interessantes e boas da sua vida.



O que um surfista busca nas trips, não é comodidade, mas sim ondas ainda não surfadas, ou aquela onda que de alguma forma, no passado quando surfada, gerou uma espécie de vício ou adoração por parte do surfista.


Parcerias para este tipo de "loucura" sempre se acha, desde que combinada com antecedência e planejamento a diversão é certa.

Enfim na praia!


As ondas estão rolando! Já começa a ansiedade para entrar logo no mar e pegar umas boas ondas, o stress da semana já está sendo esquecido.
A gurizada começa com a correria na preparação para o surfe, passar a parafina na prancha, colocar o lesh no copinho, e ver se está tudo certo com a "bóia" para evitar "dar o banho" com algum buraco na prancha.
Água boa? Bom, então, enche o rosto e os ombros de protetor solar e pronto. Água fria? Pega a sacola plástica para facilitar a vida na colocação do long, não esquece do protetor no rosto.
Chegando na beira da praia começa a análise mais detalhada do mar para ver onde estão rolando as melhores ondas e onde vamos entrar. Alongamento é bom para evitar lesões e cãimbras dentro da água e acabar prejudicando o banho.
O primeiro contato com a água do mar já traz a paz, alívio e a recompensa pela semana inteira de espera por este momento. Pronto agora é só remar, varar a rebentação e, enfim, pegar as ondas.
A gurizada "faceira da vida" começa a se atirar nas ondas e a cada boa onda a galera grita incentivando os amigos e parceiros de surfe, entre uma onda e outra os semblantes podem ser vistos e nota-se que estão todos felizes e aliviados. Brincadeiras, gritos e até cantar desde pagode, MPB, até serteneja, mesmo que ninguém goste, mas qual o problema?
Depois de várias ondas, muitas remadas e joelhinhos, e claro, algumas "vacas" a galera está de "cabeça feita" e morrendo de fome, já se começa a pensar no almoço.
Chegando em casa, a galera vai tomar uma ducha para tirar o sal e começa a agilizar a comida, cada um pega uma coisa para fazer, um já toma conta do indispensável chimarrão, tudo isso para que o almoço fique pronto logo, sempre embalados por um reggae.
Quando as panelas chegam à mesa, aí sim as criaturas se transformam, parecem que nunca tinham visto comida. Depois de um bom tempo e algumas repetições de prato a galera fica "triste". Os que não ajudaram a fazer o almoço cuidam da louça, enquanto outro passa o café e os outros já se atiram em qualquer canto para deitar ou ao menos sentar.
Depois de cuidar da louça, tomar o cafézinho, começa a bater aquela preguiça. Alguns vão para a cama, outros deitam em qualquer lugar com sombra para descansar, pois daqui umas 2 horas começa tudo de novo.
Depois de descansar por alguns minutos ou horas, a vontade de ir para a água começa a bater novamente.
Levantou com fome ou preguiça? Come alguma coisa ou toma outro café e começa a te preparar!
Verificadas as condições de surfe, começa a rotina de preparação, muito surfe e depois de umas 2 horas, chega a galera com fome e vai para a preparação da janta.
Depois da janta, muito chimarrão e conversa, até bater o sono e chegar a hora do tão merecido descanso, para acordar cedo no domingo e curtir o dia.